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A propaganda anti-China e as respostas do Sistema Internacional - Lara Ribeiro (2020)

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Desde 2016 nota-se um crescente unilateralismo nos pronunciamentos e políticas norte-americanas, evidenciado pelo abandono da superpotência de diversos acordos multilaterais – o Acordo de Paris, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e o Tratado de Associação Transpacífica (TPP), por exemplo –, e, mais recentemente, pelo corte do financiamento à Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo desvio de rotas de produtos (nomeadamente respiradores) durante a pandemia e pela compra de quase todo o estoque mundial de remdesivir, o único fármaco até então capaz de tratar o COVID-19. O nacionalismo estadunidense, exibido com orgulho pelo atual presidente Donald Trump sob o slogan de “America First”, apresenta consequências diretas no sistema internacional e nas relações interestatais durante o atual contexto pandêmico.

Conforme o novo coronavírus se espalhou pelo mundo e os Estados Unidos viram o número de casos em seu país crescer exponencialmente, Trump e outros importantes representantes do governo (como Mike Pompeo, Secretário de Estado) adotaram um discurso que visa culpabilizar a China, alegando se tratar de um vírus fabricado em laboratório, e que houve o encobrimento de informações no que se refere à sua origem e escala epidemiológica por parte da República Popular. Alguns dos ataques que mais repercutiram foi a referência ao COVID-19 como sendo o “vírus chinês”, a ameaça de pedir a Pequim o pagamento de milhões de dólares em compensação pelos danos causados pela doença e a acusação à OMS de favorecer a China e falta de transparência, além de mencionar repetidas vezes que o surto do vírus foi “encoberto” no seu período inicial. O presidente americano inclusive chegou a dizer, através da sua conta no Twitter, que foi a incompetência chinesa na gestão da pandemia que causou as mortes em massa pelo mundo, além de se referir ao vírus como um “ataque” pior que Pearl Harbor e o 11 de setembro – insinuando mais uma vez que o COVID-19 é uma estratégia chinesa para prejudicar o desenvolvimento de seu país. 

Essa postura do governo norte-americano afeta diretamente a realidade de pessoas de traços asiáticos – sejam elas nascidas nos Estados Unidos ou não. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Research Tank, dois terços da população dos EUA têm uma visão negativa da China – a pior taxa desde que o Centro começou a realizar esse monitoramento em 2005 –, e que desde o início da administração Trump a porcentagem aumentou em quase 20% (Devlin, Huang, & Silver, 2020). Ainda, outra pesquisa mostra que 4 em 10 cidadãos americanos (39%) dizem ser mais comum a expressão de visões racistas direcionadas a asiáticos agora do que antes da pandemia (Horowitz, Ruiz, & Tamir 2020).

Entretanto, não foi sempre essa a estratégia que esteve em vigor: até o final de março o presidente elogiou a China, Xi Jinping e o seu ótimo trabalho na contenção do COVID-19 repetidas vezes, sempre reforçando a boa relação que os dois países compartilhavam e como Pequim estava lidando muito bem com a situação. Ao mesmo tempo minimizava a preocupação com o coronavírus, comparando-o inclusive à uma gripe comum, e defendia que isso desapareceria dos EUA em pouco tempo (Martins, 2020). Apesar dos alertas recebidos pelos serviços secretos americanos sobre a ameaça do novo vírus – pelo menos doze entre os meses de janeiro e fevereiro –, Trump desvalorizava o seu perigo enquanto a doença se alastrava pelo seu país. 

Quando no fim de março a OMS declara a pandemia e o número de casos nos Estados Unidos aumenta rapidamente – como visto no gráfico abaixo –, o discurso do presidente republicano muda. No dia 21 do mesmo mês, Trump, no briefing diário sobre o COVID-19 da Casa Branca, disse: “Gostaria que nos tivessem contado mais cedo o que se estava a passar lá dentro. [...] Tony Fauci [epidemiologista] e todos os outros teriam adorado ter tido três ou quatro meses de tempo adicional, se soubessem que isto ia acontecer. Eles não tiveram esse tempo. Eles leram nos jornais como toda a gente. A China foi muito, muito reservada. E isso é lamentável. [...] Podiam ter sido transparentes muito mais cedo do que foram.”. Dois meses antes, contudo, Trump havia parabenizado o presidente Xi Jinping pela transparência com a qual a China estava a lidar com o coronavírus.

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A impressão deixada é que, por fim, aceitou-se que o vírus não estava controlado e que os Estados Unidos perderam tempo de resposta precioso minimizando a situação. O que se segue é uma tentativa de fazer com que o problema pareça ser de origem externa, seja através do foco nas restrições de viagens ou ao se referir ao COVID-19 como “o vírus de Wuhan” (Hanson, 2020). Pesquisadores afirmam que o impacto da pandemia pode prejudicar a campanha para a reeleição de Trump, e, na visão de seus apoiadores, eleger a OMS e a China como inimigos poderá distrair o eleitorado da falha da sua gestão durante a crise (Jacobs, Shear, & Wong, 2020).

Apesar dos Estados Unidos, em sua posição de superpotência, serem vistos como referência por muitos países e terem uma grande capacidade de influência no cenário internacional, o seu posicionamento anti-China não teve a resposta que seria esperada. Ao mesmo tempo que alguns Estados questionam o surgimento do vírus ou culpam a China pela pandemia, como foi o caso da Austrália e do Brasil, respectivamente, a grande maioria busca trabalhar em conjunto com Pequim para encontrar as melhores soluções para a atual crise mundial. 

Em maio, a Assembleia Mundial da Saúde (WHA), órgão decisório da OMS, aprovou um documento, assinado por 137 países - inclusive a China –, solicitando uma investigação imparcial e independente acerca do início da pandemia, além de focar na cooperação internacional como forma de controlar a crise sanitária. A resolução não cita a China ou Wuhan, e, além de descartar a possibilidade do vírus ter sido fabricado em laboratório, concentra-se no futuro do COVID-19 ao invés de revisar as falhas de cada país durante esse período. Inicialmente o documento foi proposto pela Austrália, que desistiu de buscar o apoio dos Estados Unidos no projeto por pensar que, devido a retórica agressiva de Trump e Pompeo, dificilmente a iniciativa receberia forte apoio internacional (Dziedzic, 2020).

 Ao contrário dos EUA e sua política cada vez mais isolacionista, a China tem defendido repetidas vezes a importância da cooperação entre os países no contexto pandêmico, tanto em discursos oficiais quanto no Relatório Branco publicado em junho desse ano. Mais de 130 países e organizações internacionais já receberam ajuda de Pequim para combater o COVID-19, seja através de doações de máscaras faciais, kits de teste e respiradores, envio de equipes médicas ou videoconferências compartilhando a sua experiência. Dessa forma, a China tem assumido uma posição de liderança e de “benfeitora” no âmbito da saúde pública, o que intensifica a sua capacidade de influência no mundo (o seu soft power) – algo necessário em tempos de rivalidade acirrada com os EUA (Kuo, 2020). 

O recuo de Trump do centro do sistema internacional como consequência do crescente unilateralismo norte-americano cria uma abertura para a China, que aos poucos vê o seu poder como potência aumentar. De acordo com Ryan Hass, acadêmico na Instituição Brookings, surge um padrão: sempre que Trump retira os Estados Unidos de uma posição de liderança internacional, Xi Jinping anuncia o avanço da China em substituição (como citado em Jacobs, Shear, & Wong, 2020). Já Juliano Cortinhas, professor da Universidade de Brasília, destaca que a postura do presidente republicano na pandemia acelera essa perda de liderança de Washington. Com isso, apesar dos discursos xenófobos do governo americano e da tentativa de culpar a China pela pandemia, Pequim continua a ocupar um papel de grande influência no cenário mundial – como pontuado por Barrech (2020): a pandemia é talvez a primeira crise global em mais de um século na qual os países não olharam para os Estados Unidos [como referência], mas sim para a China.

 

Referências Bibliográficas

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Barrech, D.M. (2020). Great Power Competition in the Post-COVID-19 Era. Modern Diplomacy. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://moderndiplomacy.eu/2020/05/03/great-power-competition-in-the-post-covid-19-era/

 

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Jacobs, A., Shear, M.D., & Wong, E. (2020). U.S.-China Feud Over Coronavirus Erupts at World Health Assembly. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://www.nytimes.com/2020/05/18/health/coronavirus-who-china-trump.html

 

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Trump ataca OMS, diz que favoreceu China e errou sobre coronavírus. (2020). R7. Recuperado em 25 junho, 2020, de https://noticias.r7.com/internacional/trump-ataca-oms-diz-que-favoreceu-china-e-errou-sobre-coronavirus-07042020

 

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Trump responsabiliza “incompetência da China” por mortes no mundo. (2020). Observador. Recuperado em 25 junho, 2020, de https://observador.pt/2020/05/20/trump-responsabiliza-incompetencia-da-china-por-mortes-no-mundo/ 

 

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