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A Nova Rota da Seda - Luíza Gewehr e Manoela Veras (2020)

 

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Desde a reforma econômica chinesa, iniciada em 1976, é possível perceber o aumento da participação da China no cenário internacional, tornando-se a segunda maior economia do mundo e expandindo seus investimentos além de suas fronteiras geográficas. Nesse sentido, a nova Rota da Seda, conhecida como One Belt, One Road, surge como um plano de investimento em infraestrutura e transporte marítimo e terrestre em vários países da Europa, Ásia e África, com o objetivo de promover o crescimento econômico chinês e a integração regional. Historicamente, a antiga rota da Seda foi uma rede de rotas comerciais que ligava o Leste e Sudeste Asiático a Ásia Central, Índia, Sudoeste Asiático, Mediterrâneo e norte da Europa. Segundo Andrea (2014), a rota desfrutou de duas eras modernas de intenso estudo acadêmico. A primeira é identificada como um período que durou pouco mais de cinco décadas, do final do século XIX ao início da década de 1930, quando uma sucessão de estudiosos europeus, japoneses e americanos redescobriram muitos dos locais e artefatos antigos da Rota da Seda. A segunda era começou a ganhar impulso nos anos 1980, devido às diversas realidades geopolíticas, culturais e tecnológicas, bem como ao surgimento da Nova História Mundial como um campo historiográfico e uma nova área de ensino. Este segundo período de fascínio pela Rota da Seda resultou não apenas em um corpo de publicações eruditas e populares, mas produções em outros tipos de mídia, além de aumentar o alcance e significado da Rota da Seda. Assim, a intensificação dos estudos sobre a mesma contribui para que esta se tornasse um fenômeno cultural e geopolítico popular (Andrea, 2014).

A inserção chinesa na Eurásia continental através da Nova Rota da Seda é uma das respostas do governo chinês ao enorme poder militar e à influência dos Estados Unidos na Ásia e no Pacífico e, simultaneamente, um mecanismo de expansão do país como um ator de peso econômico e militar no sistema internacional. A região da Eurásia dispõe de um imensidão de recursos energéticos, além de uma posição geográfica privilegiada e com a implementação de uma Nova Rota da Seda, a China se coloca como um Estado candidato ao status de grande potência a longo prazo, como também à função de ator de grande influência na Eurásia (Kotz, 2018). A construção de uma Nova Rota da Seda é apontada pelo governo chinês como um meio de trazer prosperidade à regiões subdesenvolvidas do nordeste da China e à Ásia Central (Libert et al., 2008).

 

A Nova Rota da Seda conectará o Leste asiático à Europa e África, ligando a China ao Golfo Pérsico e Mar Mediterrâneo através da Ásia Central e do Sudoeste Asiático, além de ligar a China às regiões do Sul e Sudeste Asiático e o Oceano Índico. A ‘’Rota da Seda Marítima’’ foi desenhada para conectar a costa da China à Europa através do Mar do Sul da China e do Oceano Índico em uma rota, e da costa da China através do Mar do Sul da China ao Pacífico Sul noutra rota. Essas rotas formarão seis corredores econômicos internacionais: 1) China-Mongólia-Rússia; 2) Nova Ponte Terrestre Euroasiática; 3) China-Ásia Central-Ocidental; 4) Bangladesh-China-Mianmar; 5) China-Península Indochina; 6) China-Paquistão (State Council of the Republic of China, 2015).

 

O China International Trade Institute revelou em um relatório publicado em 2015 que cerca de 65 países participaram da rota, constituindo aproximadamente 62,3% da população global e 30% do PIB mundial (Chin and He, 2016). A iniciativa, que tem como princípio a conectividade global, já conquistou mais países do que o estipulado originalmente. Em março de 2020, o número de países que aderiram a iniciativa já chegou a 138 - todos signatários do mútuo acordo com a China (The Green Belt and Road Initiative Center, 2020).

 

A partir da perspectiva internacional, os diferentes interesses geopolíticos moldam diversos posicionamentos: desde aceitação a oposição e expectativa. A iniciativa é considerada entre grande parte dos especialistas americanos como uma estratégia que impactará significativamente o futuro econômico e político da Eurásia. Esses ainda demonstraram grandes preocupações quanto aos padrões, à adequação das práticas de desenvolvimento chinesas e à erosão das normas ocidentais de desenvolvimento, a qual também é apontada como uma tentativa de diminuir a capacidade econômica dos Estados Unidos, visando a criação de uma esfera de influência na Eurásia e um pretexto para expandir a presença militar chinesa em outras regiões (Chance, 2017). A União Europeia se mostrou favorável ao projeto e acordou em criar um grupo de trabalho e uma plataforma de cooperação a fim de promover a Nova Rota da Seda no continente europeu. É esperado que os investimentos por parte do governo chinês cheguem a $1.2 trilhões até 2027 (Council on Foreign Relations, 2020) - investimentos em transporte e conectividade, com a pretensão de construir um espaço integrado de promoção da cooperação para ganhos mútuos (Rolland, 2017).

 

 

Segundo Arrighi (2008), os Estados Unidos vem enfrentando uma crise hegemônica e, portanto, realiza diversas tentativas de conter a expansão chinesa. Assim, é possível concluir que a Nova Rota da Seda terá grandes impactos no que diz respeito à influência chinesa em outras partes do mundo e, desta maneira, favorecendo a posição chinesa no Sistema Internacional como um Estado candidato ao status de grande potência (Libert et al., 2008). Como expõe Mahbubani (2018), a China retorna a sua posição natural de motor da economia mundial, como nos primeiros 19 séculos da história mundial.

 

 

Referêcia bibliográfica:

Arrighi, G. (2008). Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Boitempo editorial.

Andrea, A.J. (2014). The Silk Road in World History: A Review Essay. https://doi.org/10.12773/arwh.2014.2.1.105

Chance, A. (2016). American perspectives on the belt and road initiative. Washington, DC:

https://chinaus-icas.org/wp-content/uploads/2017/02/American-Perspectives-on-the-Belt-and-Road-Initiative.pdf.

China, H.; H, W. (2016). The Belt and Road Initiative: 65 Countries and Beyond. Fung Business                                                     Intelligence                                          Centre. https://www.fbicgroup.com/sites/default/files/B&R_Initiative_65_Countries_and_Beyond.

Council on Foreign Relations. (2020). China’s Massive Belt and Road Initiative. https://www.cfr.org/backgrounder/chinas-massive-belt-and-road-initiative.

Kotz, R.L. et al. (2018). A nova rota da seda: entre a tradição histórica e o projeto geoestratégico para o futuro. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/193931.

Libert, B.; Orolbaev, E.; Steklov, Y. (2008). Water and energy crisis in Central Asia.
http://www.asia-studies.com/asia/SilkRoad/CEF/200808/bl08watercentralasia.pdf.

Mahbubani, Kishore. (2018). A queda do ocidente? Uma provocação. Bertrand Editora.

Rolland, N. (2017). China's Eurasian Century? Political and Strategic Implications of the Belt and Road Initiative. National Bureau of Asian Research. http://www.nbr.org/publications/issue.aspx?id=346.

State Council of the Republic of China. (2015). Vision and Actions on Jointly Building Silk Road            Economic             Belt                       and                  21st-Century     Maritime          Silk         Road.
https://reconasia-production.s3.amazonaws.com/media/filer_public/e0/22/e0228017-7463-46fc-9094-0465a6f1ca23/vision_and_actions_on_jointly_building_silk_road_economic_belt_and_21st-century_maritime_silk_road.pdf.

MIT Technology Review China

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Has China Won? - Kishore Mahbubani (2020)

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China em ação: Luta contra a COVID-19

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