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A Nova Rota da Seda como Propulsora do Soft Power Chinês - Lara Ribeiro (2020)

 

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A Nova Rota da Seda, ou “One Belt, One Road”, foi apresentada pela primeira vez por Xi Jinping em 2013 durante uma visita oficial ao Cazaquistão. A iniciativa se inspira nas rotas comerciais que ligavam a China à Europa na Idade Antiga – conhecidas como a Rota da Seda – e pretende trazer prosperidade a todas as regiões chinesas, intensificar a conexão e o desenvolvimento económico, aumentar a integração com os países vizinhos e alcançar a segurança energética através da diversificação das fontes de importação (CBBC, 2015). Sob a ideia de recuperar o passado comum existente entre os Estados participantes, a Nova Rota da Seda passa a representar uma nova fonte do soft power chinês.

O conceito de soft power, introduzido pela primeira vez por Joseph Nye em 1990, é definido pelo autor como a habilidade de influenciar outros para obter os resultados que pretende através da atração, ao invés de coerção ou pagamento – se trata da capacidade de moldar as preferências de outrem. Por vezes é chamado de “poder da atração”, dado que não se resume apenas à persuasão, mas também à competência de seduzir e atrair. São mecanismos de soft power a cultura, os valores políticos, os ideais nacionais e a diplomacia. Sanguanbun (2015 como citado em Duarte, 2017, p. 25) defende que o soft power é um forte indicador do status de um Estado e da sua capacidade de influência, além de ser uma ferramenta para a manutenção de posições vantajosas no Sistema Internacional.

Esse tipo de poder é tão importante quanto o hard power, poder que surge principalmente a partir da força e da coerção, e a combinação dos dois é essencial para que um Estado possa ser considerado uma grande potência (Gill & Huang, 2006). 

Enquanto a China caminha para em breve alcançar militarmente os Estados Unidos – sob o âmbito do hard power –, ela deve igualmente desenvolver o seu soft power para adquirir o status de superpotência. A Nova Rota da Seda funciona como um impulso nesse sentido, de três maneiras em especial: primeiro, por meio da exportação da cultura chinesa; segundo, mediante uma forte posição multilateral; e em terceiro, através do reforço de um passado comum.

Na exportação da cultura chinesa através da Nova Rota da Seda, há uma forma específica através da qual esse processo decorre: por meio do comércio transnacional. Rahman (2019) defende que a cultura, ou um conjunto de práticas estabelecidas, pode ser transmitida mediante atividades comerciais e visitas. Ao reduzir as barreiras comerciais e os custos entre os países, a Nova Rota da Seda visa gerar um grande aumento nos fluxos comerciais na região e o fato de que qualquer conhecimento gerado dessa iniciativa pode ser distribuído facilmente às outras nações participantes funciona como um incentivo à adesão ao programa. Não é possível separar a cultura desse processo, uma vez que cada produto transmite uma identidade, uma ideologia, uma “narrativa” (Rahman). Ademais, programas de parceria entre instituições chinesas e internacionais cresceram exponencialmente desde o lançamento do projeto da Nova Rota da Seda, além dos acordos de mútuo reconhecimento académico estabelecidos entre a China e outros 24 países integrantes na iniciativa (Rahman). As trocas culturais que ocorrem como consequência desses intercâmbios têm o poder de, a longo prazo, produzir soft power (Nye, 2004), o que, de acordo com o autor, consegue afetar políticas que são adotadas a nível  nacional – conforme a definição de Nye, essa é a capacidade de moldar as vontades do outro a seu favor.Em suma, os fluxos comerciais que surgem com a Nova Rota da Seda, ao mesmo tempo que exportam ideais domésticos, também importam ideais do estrangeiro, e resultam em significativas trocas culturais.

Em segundo lugar, a postura diplomática e multilateral adotada pela China leva os demais países a verem-na como uma nação benigna, e tal identificação é importante ao passo que cria uma maior aproximação em relação à Pequim. A ideia de que a Nova Rota da Seda resulta em ganhos para todas as partes, bem como a enorme quantidade de empregos que já criou, atraiu a participação internacional para o projeto. Xi Jinping, no  19º Congresso Nacional do Partido Chinês realizado em 2017, reforçou a necessidade de avançar com a iniciativa seguindo o preceito de atingir o crescimento partilhado através do debate e da colaboração, além de ampliar a cooperação na construção de novas capacidades inovativas. Perante o atual cenário mundial de um unilateralismo crescente, exemplificado em especial pelo Brexit e pela saída dos Estados Unidos de uma série de acordos internacionais, a Nova Rota da Seda assume o papel de estimular a cooperação internacional (Rahman, 2019).

Outro aspecto marcante da Nova Rota da Seda é a relação que estabelece com antigas rotas comerciais que ligavam a Ásia ao Ocidente na Antiguidade – ao reviver a ideia da Rota da Seda, cria-se o sentimento de uma herança compartilhada, baseada na história de um comércio pacífico e trocas culturais harmoniosas (Winter, 2016). No prefácio do documento oficial “Visão e Ações para Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seta e da Rota Marítima da Seda do Século XXI” (2015), a República Popular da China define o espírito da Rota da Seda como sendo uma “herança histórica e cultural compartilhada por todos os países do mundo”. Para Winter (2016), os países buscarão pontos culturais semelhantes, sob o discurso da herança comum, visando adquirir influência regional e a lealdade dos demais. Com isso, as nações que integram o projeto da Nova Rota da Seda se veem mais conectadas à China – é o “poder da atração” de Nye.

Considerada por alguns autores como o programa de cooperação internacional mais ambicioso dos últimos tempos, a Nova Rota da Seda, além de representar grandes ganhos económicos para seus participantes, se traduz como uma forte propulsora do soft power chinês ao passo que exporta a cultura chinesa para além do Oriente, incentiva as relações multilaterais no Sistema Internacional e recupera a história em comum que surge no continente asiático e se expande até a África e Europa. Esse processo é de extrema relevância para a República Popular da China, que, dessa forma, ao somar a sua capacidade militar com o seu crescente poder da atração – hard power mais soft power – caminha para se tornar uma superpotência mundial.

Referências Bibliográficas
Duarte, P. (2017). Pax Sinica. Lisboa: Chiado Editora.

Ge, I., Christie, A., & Astle, J. (2015). One Belt One Road: A role for UK companies in developing China’s new initiative. China-Britain Bussiness Council.
http://files.chinagoabroad.com/Public/uploads/content/files/201704/OBOR-1-New-Opportunities-in-China-and-Beyond.pdf

Gill, B., Huang, Y. (2006). Sources and limits of Chinese “soft power”. Survival: Global Politics and Strategy, 48(2), 17-36. doi: http://dx.doi.org/10.1080/00396330600765377
N.d. (2017, 03 de Novembro). Full text of Xi Jinping’s report at 19th CPC National Congress. Xinhua. http://www.xinhuanet.com/english/special/11/03/c_136725942.htm

N.d. (2016, 11 de Julho). Visão e Ações para Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI. Embaixada da República Popular da China em Portugal. http://pt.china-embassy.org/pot/xwdt/t1381040.htm

N.d. (2015, 28 de Março). Vision and Actions on Jointly Building Silk Road Economic Belt and 21st-Century Maritime Silk Road. Ministry of Foreign Affairs of the People’s Republic of China. https://www.fmprc.gov.cn/mfa_eng/zxxx_662805/t1249618.shtml


Nye, J. S. (2008). Public Diplomacy and Soft Power. The ANNALS of the American Academy of Political and Social Science, 616(1), 94-109. doi: https://doi.org/10.1177/0002716207311699

Nye, J. S. (1990). Soft Power. Foreign Policy, 80(Autumn), 153-171. doi: https://doi.org/10.2307/1148580

Rahman, S. (2019). Does the “Belt & Road Initiative” Possess Soft Power?. Contemporary Chinese Political Economy and Strategic Relations: An Internacional Journal, 5(1), 301-331. https://icaps.nsysu.edu.tw/var/file/131/1131/img/CCPS5

Winter, T. (2016, 29 de Março). One Belt, One Road, One Heritage: Cultural Diplomacy and the Silk Road. The Diplomat. https://thediplomat.com/2016/03/one-belt-one-road-one-heritage-cultural-diplomacy-and-the-silk-road/

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