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EUA sem estratégia para África para além de rivalidade com a China.

O analista político Joshua Eisenman considera que a nova administração dos Estados Unidos vai continuar a secundarizar África na política externa norte-americana e a reduzir o continente a uma componente da crescente rivalidade com a China.

Não existe uma política para África bem elaborada e independente, mas antes uma abordagem que é uma extensão da nossa política para a China, disse o professor associado na Faculdade de Assuntos Globais Keough, na Universidade de Notre Dame, situada no estado norte-americano de Indiana.

Em entrevista à agência Lusa, Eisenman previu que África vai continuar a ser secundária na diplomacia norte-americana, e isto numa altura em que a política externa não é uma prioridade para Washington.

Neste período incrivelmente difícil em que estamos a lidar com [a pandemia do novo] coronavírus, interferências nas nossas eleições, a grande campanha de desinformação de Donald Trump e uma China cada vez mais agressiva, existirá alguma vontade de priorizar a África na política externa dos EUA, questiona.

Já a China põe muito ênfase na relação política com o continente africano, lembra Eisenman.

Há mais de duas décadas que o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês começa sempre o ano com uma viagem ao continente africano. Os líderes chineses recebem também regularmente os homólogos africanos em Pequim.

Quando foi a última vez que os EUA enviaram funcionários de alto nível a África por dois anos consecutivos, quanto mais durante 20 anos, aponta Joshua Eisenman.

O analista acrescenta que Pequim prioriza a construção de relacionamentos. A prioridade é construir relacionamentos que possam ser usados para servir os interesses do Partido Comunista Chinês.

O crescente desequilíbrio na balança comercial entre o país asiático e o continente africano poderá gerar, no entanto, desafios políticos para Pequim.

A China é, desde 2009, o maior parceiro comercial de África, mas vários países africanos registam um crescente défice com o país asiático, que tende a acentuar-se, à medida que este procura nova fornecedores de petróleo ou minérios.

Em 2008, a China importava quase um terço do petróleo de três países africanos - Angola, República do Congo e Sudão. Mas o interesse pelos fornecedores africanos tem caído. Só em Angola, as importações chinesas caíram 18% ao longo da última década.

Nos últimos anos, a China transferiu grande parte das suas compras de crude para a Arábia Saudita. As importações chinesas de petróleo bruto daquele país aumentaram quase 47%, em 2019, face ao ano anterior.

O projeto de infraestruturas internacional Belt and Road Initiative, lançado em 2013 pela China, permitiu também construir novos gasodutos e oleodutos para o Turquemenistão, Rússia e outros países geograficamente próximos da China.

Pequim precisa ter muito cuidado: se continuar a registar défices comerciais com os países africanos, isso vai acabar por gerar problemas políticos, considera Joshua Eisenman.

O comércio entre China e África cresceu 2,2%, em 2019, para 208,7 mil milhões de dólares (173 mil milhões de euros), segundo dados oficiais da Administração Geral de Alfândegas da China.

As importações da China de África caíram 3,8%, para 95,5 mil milhões de dólares (79 mil milhões de euros), enquanto as exportações aumentaram 7,9%, para 113,2 mil milhões de dólares (94 mil milhões de euros).

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