ptzh-CNen

China pode repetir o que fez com Austrália e retaliar o Brasil?

O mais recente atrito do Brasil com a China, provocado por uma fala do deputado federal Eduardo Bolsonaro, gerou uma reação dura do gigante asiático.

Em novembro, o deputado publicou (e depois apagou) mensagem dizendo que o governo brasileiro apoiava uma "aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China". Em comunicado, a embaixada chinesa em Brasília falou sobre o governo brasileiro "arcar com consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil".

O tom da resposta dos chineses foi entendido por muitos como uma ameaça.

Mas a China poderia "dar as costas" ao Brasil, adotando, por exemplo, represálias comerciais? Ou seria a China dependente de nossas commodities — as chamadas as matérias-primas negociadas no mercado internacional — como petróleo, soja e minério de ferro?

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, embora, de fato, a China tenha atualmente poucas alternativas de onde comprar senão do Brasil, não se pode descartar por completo a possibilidade de que imponha barreiras comerciais a produtos brasileiros — mesmo que saia prejudicada por essa decisão.

Neste sentido, dizem eles, é errada a visão de que, por causa da relação de codependência entre os dois países, que se fortaleceu ainda mais durante a pandemia de coronavírus, o Brasil possa "testar a paciência" de seu maior parceiro comercial sem qualquer risco.

Além disso, nessa queda de braço, o Brasil tenderia a "sair perdendo", acrescentam.

"O governo chinês é imprevisível. Claro que poderia haver represálias. Nada impediria os chineses de tomá-las. A China tem grandes estoques dessas matérias-primas. Claro que sairia prejudicada, mas se achar que o custo benefício dessa medida valha à pena, vai fazê-lo. Foi o que aconteceu recentemente com a Austrália", diz uma fonte que acompanha o tema de perto, que preferiu não ser identificada.

"Não faz sentido adotar uma postura de 'confronto desnecessário' com nosso principal parceiro comercial. Além de não trazer nenhum benefício imediato, isso poderia colocar em risco uma parceria amistosa que já vem de muito tempo", acrescenta.

Neste ano, a China adotou retaliações econômicas contra a Austrália — de quem importa a maior parte de seu minério de ferro e um de seus principais parceiros comerciais — quando autoridades australianas pediram uma investigação internacional sobre a origem do coronavírus.

Pequim elevou barreiras parciais sobre a carne australiana, taxou em 80% a importação de cevada do país e desencorajou chineses a estudarem ou fazerem turismo na Austrália, devido a "numerosos casos de discriminação contra asiáticos".

Segundo dados do Banco Mundial, a Austrália é o sexto maior exportador para China, à frente do Brasil, que aparece em sétimo.

China é a principal parceira comercial do Brasil desde 2009, quando superou os Estados Unidos.

Desde então, vem comprando cada vez mais, sendo o principal destino de produtos brasileiros.

Como compra muito mais do que vende para o Brasil, o gigante asiático contribui para manter o saldo comercial brasileiro no azul — o chamado superávit (quando exportações superam importações).

De janeiro a outubro, por exemplo, a China, que comprou 10% a mais do Brasil em relação ao mesmo período do ano passado e respondeu por 65% do superávit comercial brasileiro (US$ 30 bilhões dos US$ 47 bilhões).

Há quase dez anos, em 2011, essa taxa era de 39%, segundo o Indicador de Comércio Exterior (Icomex) da FGV/IBRE.

A China respondeu por 30% do valor exportado pelo Brasil neste ano. Já os EUA de Donald Trump, com quem o governo brasileiro tem maior afinidade ideológica, apenas 10% do total, queda de 30% ante a 2019.

Ou seja, nossa dependência em relação à China aumentou. Mas a China também ficou mais dependente das matérias-primas brasileiras.

Para abastecer seu imenso mercado interno, o apetite do gigante asiático por produtos como soja, carne, minério de ferro, açúcar e celulose cresceu — e o Brasil ganhou espaço frente à concorrência internacional como provedor desses recursos.

A isso se deveu uma combinação de fatores, entre os quais nossa capacidade de produção agropecuária, a forte desvalorização do real — de cerca de 40%, que deixou as matérias-primas brasileiras mais baratas no mercado internacional — e os atritos entre China e Estados Unidos, durante a Presidência de Trump.

"De fato, a China depende do Brasil em alguns setores específicos, como é o caso muito marcadamente da soja e das carnes. Mas na verdade isso se deu por causa de um cenário externo que favoreceu o Brasil, porque nossos concorrentes começaram a sofrer retaliações políticas da China, como foi o caso dos EUA", diz à BBC News Brasil Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

"Então, foi muito mais uma lógica de ocupação de espaço do que necessariamente um desenvolvimento da relação comercial do Brasil com a China", acrescenta.

Um dos exemplos mais emblemáticos é a soja. De janeiro a outubro, os embarques de soja brasileira à China chegaram a quase 60 milhões de toneladas, alta de 18% em relação ao mesmo período no ano passado. Apenas em setembro, a soja brasileira chegou a abocanhar 75% de todas as importações de oleaginosas pela China, enquanto a soja americana, nossa principal concorrente, ficou com apenas 12%.

egundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, ainda que, a curto prazo, devido as conjunturas tanto interna quanto externa, os chineses não tenham muita opção de importar produtos que não sejam do Brasil, no longo prazo, a situação é diferente.

"Os chineses estão buscando novos fornecedores desses produtos", diz Cariello, que cita investimentos da China no leste europeu e na África.

"Essa ideia de pensar a longo prazo faz parte do material genético do governo chinês", acrescenta.

Em entrevista recente à BBC News Brasil, o diplomata aposentado Roberto Abdenur, que atuou como embaixador em Pequim (1989 a 1993) e nos Estados Unidos (2004 a 2006), compartilhou opinião semelhante — e também criticou o governo brasileiro.

"É ilusão acharmos que a China vai continuar dependendo eternamente das nossas importações. Há outros países no mundo. A China está financiando projetos agrícolas importantes na África, em regiões que têm um clima e solo parecidos aos do Brasil, está em entendimentos também para aumentar a produção de soja na Rússia e na Ucrânia", disse.

"O Brasil está metendo os pés pelas mãos de maneira desarrazoada e contraproducente. Eduardo Bolsonaro fala como deputado, como filho do presidente e como presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. É de uma imensa irresponsabilidade, agora ameaçando causar danos graves aos interesses do Brasil com a China", acrescentou.

Para a economista e diplomata Tatiana Rosito, ex-secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e ex-representante da Petrobras na China, "a codependência é delicada e traz riscos para os dois lados, que devem mitigar esses riscos com entendimentos de longo prazo".

"Não interessa ao Brasil depender só da China e também não interessa a China depender só do Brasil", assinala.

Rosito é autora de um estudo recente em que propõe que os brasileiros olhem o parceiro asiático cada vez menos como competidor e ameaça e cada vez mais como referência e oportunidade.

O documento, intitulado Bases para uma Estratégia de Longo Prazo do Brasil para a China, foi divulgado no fim de novembro em um evento com a presença do vice-presidente Hamilton Mourão.

Ela lembra que a China é um dos países que mais investem em biotecnologia, portanto, "desentendimentos desnecessários podem fechar a porta para oportunidades", diz.

Falando sobre oportunidades, Cariello lembra que o Brasil deveria diversificar as exportações com a China.

"Embora isso seja difícil, o Brasil pode diversificar exportações em um setor em que já é competitivo, como o agronegócio. O foco do Brasil está nas carnes comoditizadas, mas não no mercado premium. Austrália, Estados e Nova Zelândia conseguem tradicionalmente vender esse tipo de produto à China", assinala.

BBC