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A propaganda anti-China e as respostas do Sistema Internacional - Lara Ribeiro (2020)

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Desde 2016 nota-se um crescente unilateralismo nos pronunciamentos e políticas norte-americanas, evidenciado pelo abandono da superpotência de diversos acordos multilaterais – o Acordo de Paris, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e o Tratado de Associação Transpacífica (TPP), por exemplo –, e, mais recentemente, pelo corte do financiamento à Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo desvio de rotas de produtos (nomeadamente respiradores) durante a pandemia e pela compra de quase todo o estoque mundial de remdesivir, o único fármaco até então capaz de tratar o COVID-19. O nacionalismo estadunidense, exibido com orgulho pelo atual presidente Donald Trump sob o slogan de “America First”, apresenta consequências diretas no sistema internacional e nas relações interestatais durante o atual contexto pandêmico.

Conforme o novo coronavírus se espalhou pelo mundo e os Estados Unidos viram o número de casos em seu país crescer exponencialmente, Trump e outros importantes representantes do governo (como Mike Pompeo, Secretário de Estado) adotaram um discurso que visa culpabilizar a China, alegando se tratar de um vírus fabricado em laboratório, e que houve o encobrimento de informações no que se refere à sua origem e escala epidemiológica por parte da República Popular. Alguns dos ataques que mais repercutiram foi a referência ao COVID-19 como sendo o “vírus chinês”, a ameaça de pedir a Pequim o pagamento de milhões de dólares em compensação pelos danos causados pela doença e a acusação à OMS de favorecer a China e falta de transparência, além de mencionar repetidas vezes que o surto do vírus foi “encoberto” no seu período inicial. O presidente americano inclusive chegou a dizer, através da sua conta no Twitter, que foi a incompetência chinesa na gestão da pandemia que causou as mortes em massa pelo mundo, além de se referir ao vírus como um “ataque” pior que Pearl Harbor e o 11 de setembro – insinuando mais uma vez que o COVID-19 é uma estratégia chinesa para prejudicar o desenvolvimento de seu país. 

Essa postura do governo norte-americano afeta diretamente a realidade de pessoas de traços asiáticos – sejam elas nascidas nos Estados Unidos ou não. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Research Tank, dois terços da população dos EUA têm uma visão negativa da China – a pior taxa desde que o Centro começou a realizar esse monitoramento em 2005 –, e que desde o início da administração Trump a porcentagem aumentou em quase 20% (Devlin, Huang, & Silver, 2020). Ainda, outra pesquisa mostra que 4 em 10 cidadãos americanos (39%) dizem ser mais comum a expressão de visões racistas direcionadas a asiáticos agora do que antes da pandemia (Horowitz, Ruiz, & Tamir 2020).

Entretanto, não foi sempre essa a estratégia que esteve em vigor: até o final de março o presidente elogiou a China, Xi Jinping e o seu ótimo trabalho na contenção do COVID-19 repetidas vezes, sempre reforçando a boa relação que os dois países compartilhavam e como Pequim estava lidando muito bem com a situação. Ao mesmo tempo minimizava a preocupação com o coronavírus, comparando-o inclusive à uma gripe comum, e defendia que isso desapareceria dos EUA em pouco tempo (Martins, 2020). Apesar dos alertas recebidos pelos serviços secretos americanos sobre a ameaça do novo vírus – pelo menos doze entre os meses de janeiro e fevereiro –, Trump desvalorizava o seu perigo enquanto a doença se alastrava pelo seu país. 

Quando no fim de março a OMS declara a pandemia e o número de casos nos Estados Unidos aumenta rapidamente – como visto no gráfico abaixo –, o discurso do presidente republicano muda. No dia 21 do mesmo mês, Trump, no briefing diário sobre o COVID-19 da Casa Branca, disse: “Gostaria que nos tivessem contado mais cedo o que se estava a passar lá dentro. [...] Tony Fauci [epidemiologista] e todos os outros teriam adorado ter tido três ou quatro meses de tempo adicional, se soubessem que isto ia acontecer. Eles não tiveram esse tempo. Eles leram nos jornais como toda a gente. A China foi muito, muito reservada. E isso é lamentável. [...] Podiam ter sido transparentes muito mais cedo do que foram.”. Dois meses antes, contudo, Trump havia parabenizado o presidente Xi Jinping pela transparência com a qual a China estava a lidar com o coronavírus.

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A impressão deixada é que, por fim, aceitou-se que o vírus não estava controlado e que os Estados Unidos perderam tempo de resposta precioso minimizando a situação. O que se segue é uma tentativa de fazer com que o problema pareça ser de origem externa, seja através do foco nas restrições de viagens ou ao se referir ao COVID-19 como “o vírus de Wuhan” (Hanson, 2020). Pesquisadores afirmam que o impacto da pandemia pode prejudicar a campanha para a reeleição de Trump, e, na visão de seus apoiadores, eleger a OMS e a China como inimigos poderá distrair o eleitorado da falha da sua gestão durante a crise (Jacobs, Shear, & Wong, 2020).

Apesar dos Estados Unidos, em sua posição de superpotência, serem vistos como referência por muitos países e terem uma grande capacidade de influência no cenário internacional, o seu posicionamento anti-China não teve a resposta que seria esperada. Ao mesmo tempo que alguns Estados questionam o surgimento do vírus ou culpam a China pela pandemia, como foi o caso da Austrália e do Brasil, respectivamente, a grande maioria busca trabalhar em conjunto com Pequim para encontrar as melhores soluções para a atual crise mundial. 

Em maio, a Assembleia Mundial da Saúde (WHA), órgão decisório da OMS, aprovou um documento, assinado por 137 países - inclusive a China –, solicitando uma investigação imparcial e independente acerca do início da pandemia, além de focar na cooperação internacional como forma de controlar a crise sanitária. A resolução não cita a China ou Wuhan, e, além de descartar a possibilidade do vírus ter sido fabricado em laboratório, concentra-se no futuro do COVID-19 ao invés de revisar as falhas de cada país durante esse período. Inicialmente o documento foi proposto pela Austrália, que desistiu de buscar o apoio dos Estados Unidos no projeto por pensar que, devido a retórica agressiva de Trump e Pompeo, dificilmente a iniciativa receberia forte apoio internacional (Dziedzic, 2020).

 Ao contrário dos EUA e sua política cada vez mais isolacionista, a China tem defendido repetidas vezes a importância da cooperação entre os países no contexto pandêmico, tanto em discursos oficiais quanto no Relatório Branco publicado em junho desse ano. Mais de 130 países e organizações internacionais já receberam ajuda de Pequim para combater o COVID-19, seja através de doações de máscaras faciais, kits de teste e respiradores, envio de equipes médicas ou videoconferências compartilhando a sua experiência. Dessa forma, a China tem assumido uma posição de liderança e de “benfeitora” no âmbito da saúde pública, o que intensifica a sua capacidade de influência no mundo (o seu soft power) – algo necessário em tempos de rivalidade acirrada com os EUA (Kuo, 2020). 

O recuo de Trump do centro do sistema internacional como consequência do crescente unilateralismo norte-americano cria uma abertura para a China, que aos poucos vê o seu poder como potência aumentar. De acordo com Ryan Hass, acadêmico na Instituição Brookings, surge um padrão: sempre que Trump retira os Estados Unidos de uma posição de liderança internacional, Xi Jinping anuncia o avanço da China em substituição (como citado em Jacobs, Shear, & Wong, 2020). Já Juliano Cortinhas, professor da Universidade de Brasília, destaca que a postura do presidente republicano na pandemia acelera essa perda de liderança de Washington. Com isso, apesar dos discursos xenófobos do governo americano e da tentativa de culpar a China pela pandemia, Pequim continua a ocupar um papel de grande influência no cenário mundial – como pontuado por Barrech (2020): a pandemia é talvez a primeira crise global em mais de um século na qual os países não olharam para os Estados Unidos [como referência], mas sim para a China.

 

Referências Bibliográficas

35: o número de vezes que Trump elogiou (e criticou) a China no combate à Covid-19. (2020). Executive Digest. Recuperado em 24 junho, 2020, de https://executivedigest.sapo.pt/35-o-numero-de-vezes-que-trump-elogiou-e-criticou-a-china-no-combate-a-covid-19/

 

Barrech, D.M. (2020). Great Power Competition in the Post-COVID-19 Era. Modern Diplomacy. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://moderndiplomacy.eu/2020/05/03/great-power-competition-in-the-post-covid-19-era/

 

Chueca, J., & Carneiro, I. (2020). O conspiracionista contra a China na sombra de Trump. JN. Recuperado em 24 junho, 2020, de https://www.jn.pt/mundo/o-conspiracionista-contra-a-china-na-sombra-de-trump-12148313.html

 

Corrêa, A. (2020). O que explica a mudança de tom de Trump sobre o coronavírus. BBC. Recuperado em 24 junho, 2020, de https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51865313

 

Hills, M. (2020). Coronavírus nos EUA: 4 gráficos que mostram por que a pandemia de covid-19 não está controlada. BBC. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53137480

 

Jacobs, A., Shear, M.D., & Wong, E. (2020). U.S.-China Feud Over Coronavirus Erupts at World Health Assembly. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://www.nytimes.com/2020/05/18/health/coronavirus-who-china-trump.html

 

Martins, A. (2020). Casa Branca “foi alertada várias vezes” para ameaça do novo coronavírus. Público. Recuperado em 25 junho, 2020, de https://www.publico.pt/2020/04/28/mundo/noticia/casa-branca-alertada-varias-vezes-ameaca-novo-coronavirus-1914240

 

Nahmen, A. Von (2020). Trump quer usar a China como bode espiatório na campanha eleitoral. DW. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://www.dw.com/pt-br/trump-quer-usar-china-como-bode-expiat%C3%B3rio-na-campanha-eleitoral/a-53375157

 

Trump acusa China de não ter impedido pandemia de covid-19. (2020). Euronews. Recuperado em 27 junho, 2020, de https://pt.euronews.com/2020/04/28/trump-acusa-china-de-nao-ter-impedido-pandemia-de-covid-19

 

Trump acusa OMS de dar muita atenção à China e ataca o organismo: “estragou tudo”. (2020). O Globo. Recuperado em 27 junho, 2020, de https://oglobo.globo.com/mundo/trump-acusa-oms-de-dar-muita-atencao-china-ataca-organismo-estragou-tudo-24356965

 

Trump ataca OMS, diz que favoreceu China e errou sobre coronavírus. (2020). R7. Recuperado em 25 junho, 2020, de https://noticias.r7.com/internacional/trump-ataca-oms-diz-que-favoreceu-china-e-errou-sobre-coronavirus-07042020

 

Trump acusa Organização Mundial da Saúde de ser “marioneta da China”. (2020). Público. Recuperado em 26 junho, 2020, de https://www.publico.pt/2020/05/18/mundo/noticia/trump-acusa-organizacao-mundial-saude-marioneta-china-1917137

 

Trump responsabiliza “incompetência da China” por mortes no mundo. (2020). Observador. Recuperado em 25 junho, 2020, de https://observador.pt/2020/05/20/trump-responsabiliza-incompetencia-da-china-por-mortes-no-mundo/ 

 

Vidigal, L. (2020). Pandemia de Covid-19 redesenhou corrida presidencial nos EUA; entenda o cenário. G1. Recuperado em 28 junho, 2020, de https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/06/28/pandemia-de-covid-19-redesenhou-corrida-presidencial-nos-eua-entenda-o-cenario.ghtml

 

 

 

 

 

 

Tensões entre a República Popular da China e os Estados Unidos da América - Grasielly Silva e Maísa Siena (2020)

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Desde o ano de 2018, a República Popular da China iniciou um processo conhecido como guerra comercial com os Estados Unidos. O fenômeno de notável repercussão internacional que vêm atraindo os olhos do mundo inteiro para si, parece atingir seu apogeu em meio à um momento de tamanha incerteza oriundo da pandemia do novo coronavírus, endurecendo a rivalidade entre as duas potências.

Em conformidade com as palavras do cientista político Iam Bremmer, o desenvolvimento do termo “G-Zero” em clara oposição ao “G-20” colabora para apontar uma possível queda da supremacia estadunidense perante o contemporâneo protagonismo chinês em face aos acontecimentos mundiais, como se pode observar no auxílio mundial em prol do combate à Covid-19 promovido pela China.

Cabe mencionar, todavia, que há uma provável relação entre a queda da liderança dos Estados Unidos e sua conjuntura interna, na qual temos como exemplosos escândalos que acusam o país de reter equipamentos médicos destinados à outras nações e o aumento da exaltação do sentimento nacionalista e unilateral que configura o caso do slogan “AmericaFirst”,sustentado pelo atual presidente Donald Trump.

É válido salientar que não é de hoje que os americanos temem a tomada da dianteira pela China. Esse “ódio” mostra-se fomentado a partir da reforma econômica germinada por Deng Xiaoping em 1978, com suas políticas de investimento nos setores da indústria, educação, tecnologia e infraestrutura e o estabelecimento das ZEE’s (zonas econômicas especiais), que culminou com a obtenção do posto de segunda maior economia mundial pelo país.

Contudo, sob esse prisma da preocupação americana de perder seu status de melhor economia do mundo e o advento da guerra comercial com a China, podemos citar inúmeras consequências para a ordem geopolítica global, destacando que, indubitavelmente, a pauta das exportações será a mais afetada a curto e longo prazo, trazendo consigo a redução de consumo e a elevação de preços, resultando em recessões e crises comerciais em diversas nações, em especial as subdesenvolvidas, como o Brasil.


Recentemente, o mundo está sendo afetado pela pandemia de Covid-19. O surto inicial da doença foi na província de Wuhan na China, o primeiro epicentro mundial, em meados de janeiro. A doença já se espalhou pelos quatros continentes, deixando marcas irrecuperáveis e milhares de mortos.

As relações entre China e EUA, que já eram ruins antes da pandemia, com guerra comercial intensa, pioraram depois da propagação da covid-19, a doença provocada pelo novo Coronavírus. O presidente americano, Donald Trump, atacou o país asiático, o acusando de criar em laboratório o patógeno e esconder informações. (EFE, 2020, 4º parágrafo).

Muito tem se noticiado na mídia internacional acerca desse caso, principalmente por conta das recentes ameaças americanas e o crescimento de casos de xenofobia quando a doença atingiu o globo. 

Em suma, pode se concluir que a disputa de poder entre os dois países não será resolvida facilmente. Desde quando o país asiático assumiu um papel importante no cenário de comércio internacional, percebe-se um certo incomodo da parte do país americano, a ponto de acontecer algumas tensões sérias no cenário internacional, além de ataques direcionados de difamação.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

GUERRERA, A, SBARDELOTTO, M. “G7? Não, G-Zero. E o mundo será cada vez mais instável.” Entrevista com Ian Bremmer.

 

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/568161-g7-nao-g-zero-e-o-mundo-sera-cada-vez-mais-instavel-entrevista-com-ian-bremmer

 

ANTUNES, C. A reforma que fez a china abraçar o mundo. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj3007200602.htm

 

REDAÇÃO RBA. China ajuda outros países, inclusive o Brasil, no combate ao coronavírus

 

https://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2020/03/china-ajuda-outros-paises-inclusive-o-brasil-no-combate-ao-coronavirus/.

 

Coronavírus: EUA são acusados de 'pirataria' e 'desvio' de equipamentos que iriam para Alemanha, França e Brasil.

 

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52166245

 

EFE. China acusa Estados Unidos de tentar provocar ‘nova guerra fria’.

 

https://noticias.r7.com/internacional/china-acusa-estados-unidos-de-tentar-provocar-nova-guerra-fria-24052020

 

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Soft Power, Hard Power e Smart Power: O uso dos poderes no desenvolvimento chinês. - Mariana Roseo (2020)

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A China tem se reinventado nos últimos anos, se destacando com o crescimento acelerado de seu PIB e do seu desenvolvimento socioeconómico. A fim de entender o posicionamento atual do governo chinês, devemos relembrar as grandes transformações que o país está passando desde o final dos anos 70. Os chineses romperam com a política de isolamento e estão cada vez mais se abrindo para o mundo, fazendo com que diversos países queiram e tenham a necessidade de se aproximar da República Popular da China. Porém, para que esse crescimento fosse possível, o governo chinês utilizou com inteligência as três formas de poder, apresentadas pelo Professor Joseph Ney e aplicadas nas Relações Internacionais, denominadas de Soft Power, Hard Power e Smart Power.

Primeiramente, no ano de 2007, a China começou a investir fortemente no seu poderio militar, levando a um aumento significativo de seu Hard Power. O Exército Chinês entrou em um processo grandioso de transformação, contou com a juda de tecnologia vinda da Rússia, renovando toda sua frota nos últimos anos.

Além disso, a China também tem se tornado um grande exportador de armas, oferecendo armamento de altíssima tecnologia por quase a metade do preço daqueles vendidos pelos Estados Unidos. Fazendo assim, com que tenha grande influência sobre diversos países no mundo. No entanto, o presidente Hu Jintao percebeu que, se investisse apenas em armamento e tecnologia bélica, iria se afastar e assustar os seus vizinhos. Mas, se investisse em Soft Power ao mesmo tempo, iria diminuir as chances de atrair inimigos, além de, ganhar força e acelerar o seu desenvolvimento. Dessa forma, a ascensão Chinesa foi marcada também por um grande desenvolvimento nas áreas tecnológica, econômica e social, tornando-a uma grande potência mundial. Em conjunto ao seu desenvolvimento, a China instaurou no Sistema Internacional um novo modo de realizar o Soft Power, através da cooperação em diversas vertentes.

O Soft Power Chinês é caracterizado por se desenvolver de maneira pacífica e harmoniosa, com o objetivo claro de modificar a visão mundial que há sobre a China. Diante disso, através das relações comerciais e de fortes investimentos na educação, a potência se mostra eficaz em incentivar o intercâmbio de estudantes do mundo inteiro para o país. Como exemplo, o país oferece aulas de chinês, por meio do Instituto Confúcio, com o objetivo de estimular o conhecimento da língua e cultura chinesa no estrangeiro, aumentando a sua importância no futuro, inclusive para a realização de negociações internacionais.

Em suma, a China têm se mostrado um país que sabe articular e planejar o uso de suas políticas e fazer com que as mesmas sejam uma forma de afirmação e influência sobre outros países. O país está evoluindo, principalmente, pela combinação do Soft Power e Hard Power, denominado então pelo Professor Joseph Ney como Smart Power.

A fim de exemplificar o Smart Power Chinês, o país possui cerca de 35% das reservas e o controle de 97% do comércio mundial das terras-raras. Dessa forma, o uso e a venda das mesmas, garante que o país tenha como negociar a distribuição do produto e escolher quem terá acesso a essa matéria prima de extrema importância. Fazendo com que aumente o interesse dos outros países em fazer comércio com a China e que cada vez mais queiram se aproximar do país.

Antes da pandemia, acreditava-se que em aproximadamente 10 anos, a China se tornariaá a maior potência mundial devido a sua estratégica utilização de políticas educacionais, ao seu forte desenvolvimento tecnológico, a cooperação diplomática com os Estados em desenvolvimento e, ainda, sua soberania gerada a partir de sua vasta capacidade militar e econômico-financeira.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


MARTINELLI, C. O Jogo Tridimensional: o Hard Power, o Soft Power e a Interdependência Complexa, segundo Joseph Nye. 2016. Recuperado em 09 de maio de 2020, de
http://www.humanas.ufpr.br/portal/conjunturaglobal/files/2016/06/5-Caio-BarbosaMartinelli.pdf

PINTO, D. O Smart Power Como Um Novo Projeto De Poder Na Esfera Internacional: Uma Análise do Brasil e sua Inserção Internacional nos Governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula Da Silva. 2016. Recuperado em 09 de meio de 2020, de http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/305057/1/Pinto_DanielleJacon Ayres_D.pdf

Como a China se tornou uma potência militar global. BBC. Recuperado em 08 de maio de 2020, de https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43101604

KOREH, R. The Chinese Smart Power Strategy. 2015. Recuperado em 08 de maio de 2020, de https://harvardpolitics.com/world/chinese-smart-power-strategy/

 

 


A Nova Rota da Seda como Propulsora do Soft Power Chinês - Lara Ribeiro (2020)

 

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A Nova Rota da Seda, ou “One Belt, One Road”, foi apresentada pela primeira vez por Xi Jinping em 2013 durante uma visita oficial ao Cazaquistão. A iniciativa se inspira nas rotas comerciais que ligavam a China à Europa na Idade Antiga – conhecidas como a Rota da Seda – e pretende trazer prosperidade a todas as regiões chinesas, intensificar a conexão e o desenvolvimento económico, aumentar a integração com os países vizinhos e alcançar a segurança energética através da diversificação das fontes de importação (CBBC, 2015). Sob a ideia de recuperar o passado comum existente entre os Estados participantes, a Nova Rota da Seda passa a representar uma nova fonte do soft power chinês.

O conceito de soft power, introduzido pela primeira vez por Joseph Nye em 1990, é definido pelo autor como a habilidade de influenciar outros para obter os resultados que pretende através da atração, ao invés de coerção ou pagamento – se trata da capacidade de moldar as preferências de outrem. Por vezes é chamado de “poder da atração”, dado que não se resume apenas à persuasão, mas também à competência de seduzir e atrair. São mecanismos de soft power a cultura, os valores políticos, os ideais nacionais e a diplomacia. Sanguanbun (2015 como citado em Duarte, 2017, p. 25) defende que o soft power é um forte indicador do status de um Estado e da sua capacidade de influência, além de ser uma ferramenta para a manutenção de posições vantajosas no Sistema Internacional.

Esse tipo de poder é tão importante quanto o hard power, poder que surge principalmente a partir da força e da coerção, e a combinação dos dois é essencial para que um Estado possa ser considerado uma grande potência (Gill & Huang, 2006). 

Enquanto a China caminha para em breve alcançar militarmente os Estados Unidos – sob o âmbito do hard power –, ela deve igualmente desenvolver o seu soft power para adquirir o status de superpotência. A Nova Rota da Seda funciona como um impulso nesse sentido, de três maneiras em especial: primeiro, por meio da exportação da cultura chinesa; segundo, mediante uma forte posição multilateral; e em terceiro, através do reforço de um passado comum.

Na exportação da cultura chinesa através da Nova Rota da Seda, há uma forma específica através da qual esse processo decorre: por meio do comércio transnacional. Rahman (2019) defende que a cultura, ou um conjunto de práticas estabelecidas, pode ser transmitida mediante atividades comerciais e visitas. Ao reduzir as barreiras comerciais e os custos entre os países, a Nova Rota da Seda visa gerar um grande aumento nos fluxos comerciais na região e o fato de que qualquer conhecimento gerado dessa iniciativa pode ser distribuído facilmente às outras nações participantes funciona como um incentivo à adesão ao programa. Não é possível separar a cultura desse processo, uma vez que cada produto transmite uma identidade, uma ideologia, uma “narrativa” (Rahman). Ademais, programas de parceria entre instituições chinesas e internacionais cresceram exponencialmente desde o lançamento do projeto da Nova Rota da Seda, além dos acordos de mútuo reconhecimento académico estabelecidos entre a China e outros 24 países integrantes na iniciativa (Rahman). As trocas culturais que ocorrem como consequência desses intercâmbios têm o poder de, a longo prazo, produzir soft power (Nye, 2004), o que, de acordo com o autor, consegue afetar políticas que são adotadas a nível  nacional – conforme a definição de Nye, essa é a capacidade de moldar as vontades do outro a seu favor.Em suma, os fluxos comerciais que surgem com a Nova Rota da Seda, ao mesmo tempo que exportam ideais domésticos, também importam ideais do estrangeiro, e resultam em significativas trocas culturais.

Em segundo lugar, a postura diplomática e multilateral adotada pela China leva os demais países a verem-na como uma nação benigna, e tal identificação é importante ao passo que cria uma maior aproximação em relação à Pequim. A ideia de que a Nova Rota da Seda resulta em ganhos para todas as partes, bem como a enorme quantidade de empregos que já criou, atraiu a participação internacional para o projeto. Xi Jinping, no  19º Congresso Nacional do Partido Chinês realizado em 2017, reforçou a necessidade de avançar com a iniciativa seguindo o preceito de atingir o crescimento partilhado através do debate e da colaboração, além de ampliar a cooperação na construção de novas capacidades inovativas. Perante o atual cenário mundial de um unilateralismo crescente, exemplificado em especial pelo Brexit e pela saída dos Estados Unidos de uma série de acordos internacionais, a Nova Rota da Seda assume o papel de estimular a cooperação internacional (Rahman, 2019).

Outro aspecto marcante da Nova Rota da Seda é a relação que estabelece com antigas rotas comerciais que ligavam a Ásia ao Ocidente na Antiguidade – ao reviver a ideia da Rota da Seda, cria-se o sentimento de uma herança compartilhada, baseada na história de um comércio pacífico e trocas culturais harmoniosas (Winter, 2016). No prefácio do documento oficial “Visão e Ações para Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seta e da Rota Marítima da Seda do Século XXI” (2015), a República Popular da China define o espírito da Rota da Seda como sendo uma “herança histórica e cultural compartilhada por todos os países do mundo”. Para Winter (2016), os países buscarão pontos culturais semelhantes, sob o discurso da herança comum, visando adquirir influência regional e a lealdade dos demais. Com isso, as nações que integram o projeto da Nova Rota da Seda se veem mais conectadas à China – é o “poder da atração” de Nye.

Considerada por alguns autores como o programa de cooperação internacional mais ambicioso dos últimos tempos, a Nova Rota da Seda, além de representar grandes ganhos económicos para seus participantes, se traduz como uma forte propulsora do soft power chinês ao passo que exporta a cultura chinesa para além do Oriente, incentiva as relações multilaterais no Sistema Internacional e recupera a história em comum que surge no continente asiático e se expande até a África e Europa. Esse processo é de extrema relevância para a República Popular da China, que, dessa forma, ao somar a sua capacidade militar com o seu crescente poder da atração – hard power mais soft power – caminha para se tornar uma superpotência mundial.

Referências Bibliográficas
Duarte, P. (2017). Pax Sinica. Lisboa: Chiado Editora.

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Gill, B., Huang, Y. (2006). Sources and limits of Chinese “soft power”. Survival: Global Politics and Strategy, 48(2), 17-36. doi: http://dx.doi.org/10.1080/00396330600765377
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Nye, J. S. (2008). Public Diplomacy and Soft Power. The ANNALS of the American Academy of Political and Social Science, 616(1), 94-109. doi: https://doi.org/10.1177/0002716207311699

Nye, J. S. (1990). Soft Power. Foreign Policy, 80(Autumn), 153-171. doi: https://doi.org/10.2307/1148580

Rahman, S. (2019). Does the “Belt & Road Initiative” Possess Soft Power?. Contemporary Chinese Political Economy and Strategic Relations: An Internacional Journal, 5(1), 301-331. https://icaps.nsysu.edu.tw/var/file/131/1131/img/CCPS5

Winter, T. (2016, 29 de Março). One Belt, One Road, One Heritage: Cultural Diplomacy and the Silk Road. The Diplomat. https://thediplomat.com/2016/03/one-belt-one-road-one-heritage-cultural-diplomacy-and-the-silk-road/

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