Relações entre Portugal e China - 46 anos

2025-02-06

Por Rui Lourido, presidente do Observatório da China 

 

Em 2025, Ano Chinês da Serpente, Portugal comemora o 46º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas oficiais entre o Estado português e o Estado chinês. Perante a enorme pressão do Ocidente contra a China (do Decoupling dos EUA ao Dirisking da União Europeia), desejamos que as características tradicionais do Ano Novo Chinês da Serpente, de sabedoria estratégica e harmonia, se traduzam no aprofundamento do relacionamento entre Portugal e China. Ao contrário de muitos outros países europeus, Portugal tem um património histórico de relacionamento pacífico, de mais de cinco séculos com a China, pelo que tem uma responsabilidade acrescida de dar continuidade a esse relacionamento.

 

No passado, Portugal foi pioneiro no desenvolvimento do comércio de produtos preciosos chineses para Portugal e daqui para o resto da Europa e para todos os outros continentes. No contexto atual, de profunda crise económica europeia, é importante a diversificação de nossos laços, priorizando o desenvolvimento de relações económicas, científicas, tecnológicas e culturais. Portugal deve apoiar as escolas e universidades na promoção de programas conjuntos com as universidades da China, de cursos de mandarim e cultura chinesa para os portugueses e de português para os chineses, além de parcerias científicas com vários setores tecnológicos de ponta do país asiático. É importante o apoio às organizações empresariais luso-chinesas, sejam elas empresas de pequeno, médio, ou grande porte. E as associações culturais e desportivas devem ser apoiadas nas parcerias e iniciativas conjuntas com as congéneres chinesas. Conhecer melhor o outro e a sua cultura é o primeiro passo para melhorar a inclusão e o progresso sustentável no relacionamento económico e diplomático.

 

Uma maior segurança nas redes de telecomunicações é importante e necessária, mas a transposição, para a ordem jurídica portuguesa, da Diretiva sobre a Segurança das Redes e da Informação 2 (Diretiva NIS2) tem vindo a preocupar os empresários portugueses que investiram em infraestruturas 5G da Huawei, acreditando nas autoridades portuguesas que, em 2018, assinaram um protocolo a legitimar a instalação da 5G da Huawei em Portugal. Muitos países da União Europeia têm vindo a submeter-se às pressões explícitas do governo dos EUA. Portugal procura impor critérios não-técnicos, como o país de origem dos fornecedores, o que introduz um fator discriminatório que desvirtua a concorrência. Uns e outros têm com o objetivo principal excluir a China do mercado das telecomunicações.

 

Portugal tem a responsabilidade de promover o relacionamento fraterno com Macau e as suas diferentes comunidades, através da Região Administrativa Especial de Macau. Sam Hou Fai, o novo chefe do Executivo da RAEM, comprometeu-se a intensificar os vários instrumentos que o governo central da China tem colocado ao dispor de Macau.

 

A visita do presidente Xi Jinping a Macau, no 25º aniversário do retorno de Macau à pátria, no dia 20 de dezembro de 2024, foi de grande relevância política e geoestratégica. Ele fez um rasgado elogio ao governo da RAEM, afirmando que o desenvolvimento e  a diversificação económica capitalista de Macau comprovam a eficácia da política “um país, dois sistemas”.

 

Para Xi, o desenvolvimento e a diversificação económica têm contribuído o facto de Macau e de Hong Kong se integrarem no grande projeto de desenvolvimento da província de Guangdong, criado pelo governo central da China, designado da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau, que congrega outras nove cidades da província de Guangdong. Para Macau é de especial importância a sua participação na Zona de Cooperação Aprofundada Guangdong-Macau em Hengqin, Zhuhai.

 

Já em 2003 o governo central da China criou o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, também conhecido como Fórum Macau, com o objetivo de gerar condições para a diversificação do tecido económico de Macau e para a melhoria da qualidade de vida da sua população. A importância política e económica deste Fórum foi reforçada, em abril 2024, com a realização da VI Conferência Ministerial, sob o tema “Nova Era, Nova Visão” para o triénio 2024-2027.

 

Segundo o Fórum Macau, nos primeiros nove meses de 2024, as exportações dos países lusófonos para a China revelaram-se como o melhor arranque do ano de sempre, com um aumento de 2,6%. Neste período, as exportações de Portugal para a China subiram 8,9%. Em 2024, a China continuou a ser o maior parceiro comercial de Portugal na Ásia, e o investimento português na China cresceu de forma constante. Mas, naturalmente, foram as exportações do Brasil que mais contribuíram para este valor, ao terem crescido 2,8%. Já as trocas comerciais de Janeiro a Novembro de 2024 registaram um aumento homólogo de 4,35% (US$ 208,644 bilhões ). No âmbito global, a balança comercial foi bastante favorável aos países de língua portuguesa, pois as importações chinesas dos países lusófonos tiveram um crescimento homólogo de 2,26% (US$ 129,94 bilhões), e as exportações da China para tais nações, apesar de terem tido um crescimento homólogo de 17,45%, contabilizaram US$ 78,704 bilhões.

 

O Brasil continua a ser o maior parceiro comercial lusófono da China, seguido de Angola. Portugal ocupa a terceira posição, sendo que o valor das trocas comerciais com a China tem registrado aumentos permanentes. Portugal continua a vender, entre outros, os seus produtos tradicionais, nomeadamente vinho, azeite, flor de sal e produtos de cortiça. O transporte é feito por via marítima, mas também pela rede ferroviária que liga a Holanda, percorrendo quase 11.000 quilómetros (atravessando Alemanha, Polónia, Bielorrússia, Rússia e Cazaquistão), até Chengdu, em Sichuan. A ligação ferroviária permite reduzir de quatro meses por mar, para apenas 13 dias por trilhos. O custo é também apenas um quinto do valor do transporte aéreo.

 

A China desempenha um papel essencial na estabilidade e promoção da economia mundial. Enquanto segunda economia do mundo em PIB Per Capita e primeira em Poder de Compra Comparado contribuiu, em 2024, com mais de 20% para o desenvolvimento e estabilidade da economia mundial. Kristalina Georgieva, atual Diretora-Geral do Fundo Monetário Internacional, reconheceu a contribuição da economia chinesa ao referir “Essa notável resiliência se deve principalmente aos mercados emergentes e aos gastos robustos dos consumidores e do governo”.

 

Num mundo em convulsão, com guerras em várias geografias, nomeadamente na Europa, no Oriente Médio e na África, intensifica-se a crise económica no continente europeu e no Ocidente, destacando-se o papel estabilizador e pacificador da China. Neste contexto geoestratégico, Portugal mantendo toda a autonomia e as alianças tradicionais com o Ocidente, deveria complementarmente acompanhar a atitude dominante dos países lusófonos, em especial do Brasil, de intensificação das suas relações económicas e científicas com a China.

 

CRI

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